Sem Censura





17/08/2006 03:56

Liberdade!
Entra ano , sai ano.
Traiçoeira, a mocidade logo passa.
Lenta, demorada e penosa acontece a velhice.
O tempo escorrega por entre os dedos da vida
até chegar ao nada da morte...
E a exclamação “Liberdade” teima ficar ecoando
aos ouvidos, como rufar de distantes tambores.
Liberdade!
O que será a Liberdade?!
Pagaram para que eu nascesse.
Paguei para viver.
Pagarão para me devolver à terra.
Desde o primeiro vagido, desde o primeiro sonho,
desde o primeiro degrau até ao declínio, tudo pago...
Só pagando, pagando.
Liberdade!
É produto acabado?
Paga-se por um pacote, ou por uma nuvem distante?
Se a população é seviciada pela Liberdade,
e bem mais da metade dos 180 milhões sobrevive
de fé e migalhas, fui tentar entender a Liberdade
sob os viadutos, escutá-la nas degradantes filas
pelas madrugadas, acompanhá-la do lado de cá dos
balcões dos Ministérios, enxergá-la - desdentada e rota
- chorando por uma assinatura, clamando por uma atenção, gaguejando pelo pagamento que não veio, suplicando
por um direito, disputando uma receita do “Seu” doutor,
esfolando-se por um comprimidinho, anulando-se
pelos derradeiros sete palmos de terra que pensavam
que o filhinho, que escarrava sangue, tivesse
no latifúndio da Liberdade...
Liberdade é isso?!
E o político bem nutrido, redondo, perfumado,
de fala bonita, que chega na terça e some na sexta?
Aquele, o oferecido, que prometeu, jurou e até fez voto
de pobreza, o que se dizia honrado e de mãos limpas,
que espumava no repique do “eu farei, eu defenderei,
eu lutarei, eu salvarei”, cadê ele?
Dele ficou o som distante de uma palavra mágica,
lançada ao vento do faz-de-conta: “Dignidade.”
Liberdade, Dignidade... até rimam.
Mas apenas rimam, nunca se acasalam.
Muito menos procriam.
Há dignidade na fome?
Há liberdade naquele que suplica?
Mas tinha que ser assim mesmo.
Afinal, qual pobre saberia comer brioche?!

Arnaldo Romano




enviada por Vivian






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